Joaquim Monteiro de Carvalho e Silva

Joaquim Monteiro de Carvalho e Silva nasceu em Campinas, Província de São Paulo, no dia 13 de novembro de 1855. Era filho de Antonio Monteiro de Carvalho e Silva, comerciante português, nascido nos arredores da cidade do Porto e vindo jovem para o Brasil, onde constituiu família, e Teolinda Pires Monteiro, de longa ascendência brasileira, mas com origem tanto lusa como ameríndia. Era o décimo de vários filhos e filhas que teve o casal, que por dificuldade e peso excessivo na sustentação da família, não pôde chegar a possuir pecúlio razoável.

Não tinha ainda vinte anos, quando foi para a Corte, onde trabalhou com intensidade.


Suas letras que eram rudimentares, mas que acrescentavam sempre que podia o brilho da sua inteligência e desejo de instruir-se, no meio em que viveu, não pudera elevar-se muito. Estava sempre no trabalho do comércio e no meio a esse desempenho social correspondia: gente boa, mas rude.

Quando voltou para Campinas, onde deixara a noiva, no intuito de casar-se; trazia o pecúlio regular, suficiente para instalar-se e começar sua vida.Era querido e seus companheiros de trabalho o homenagearam.

A estada no Rio de Janeiro transformou-o em ardente republicano. Companheiro de Quintino Bocaiúva, Felício Santos, Porciúncula, Julio Moura, Luis Querino e outros, distinguindo-se pela atividade e ardor no auxilio desenvolvido para as proclamações de “o Globo” e nas eleições gerais em que o Partido Republicano disputava o seu lugar ao sol, desde 1870.

Por ocasião do manifesto democrático de 1870, foi signatário em Campinas, para ficar junto com velhos companheiros. O célebre documento marcou o início das idéias e da propaganda do sistema democrático no Brasil. Voltando para Campinas por não ter desejado permanecer na Corte, casou-se a 27 de novembro de 1880 com Maria do Belém Bueno Monteiro, nascida em Castro (Paraná) em 9 de janeiro de 1858, filha do Dr. Vicente Ferreira da Silva Bueno, bacharel e juiz da Relação, e Maria Rosa da Silva Bueno, sua sobrinha, descendentes de Anhanguera e do Amador Bueno da Ribeira.

Em Campinas, antes que pudesse encontrar uma nova diretriz para sua vida, fez parte da diretoria do Clube Republicano, sendo sempre elemento útil, companheiro de Campos Sales e Francisco Glicério, dos quais permaneceu fiel amigo até a morte.

Conseguiu capital paulista para montar serrarias e bancos no Paraná, veio aventurar a sua vida na terra dos pinheirais, trazendo consigo a esposa e os quatro filhos mais velhos, um dos quais perdeu algum tempo mais tarde.

Começou trabalhando arduamente no Araçatuba, ao mesmo tempo em que recebeu por aqui seus liames políticos com Vicente Machado, Correia de Freitas e Emiliano Perneta, entre outros.

Ao ser proclamada a República estava trabalhando na serraria, mas tinha o sentido preso às coisas do Rio, e por pressentimento ou aviso secreto, veio assistir a posse do governador Cardoso Junior e a transformação da Província em Estado.

Quando o governador Américo Lobo Leite Pereira criou barreiras na divisa do Paraná com Santa Catarina, Joaquim Monteiro foi chamado ao Rio pelos membros do Governo Provisório em 1890, e convocado a assumir as rédeas do Estado, mesmo interinamente. Não viu outra alternativa, senão em aceitar. Governou poucas semanas.

O centro era contrário às barreiras porque elas separam os elementos da federação; mas também Joaquim Monteiro achou que a federação seria antiga se houvesse intromissão impedindo fonte de recursos considerada indispensável. Prevaleceu o ponto de vista local. Quando surgiu o golpe de três de novembro, com o fechamento do Congresso, pelo Mal. Deodoro, já houvera passado o governo ao Dr. Serzedelo Correia. Opôs-se à medida de força. Caiu em desgraça.

Foi Joaquim Monteiro dos homens mais úteis ao Estado no seu tempo. Dada sua origem humilde e seus princípios republicanos, não possuía melindres no seu comportamento pessoal. Daí ser presidente do Congresso inúmeras vezes, camarista outras tantas e prefeito interino, sem perder a modéstia. Quando o Dr. Generoso Marques foi deposto em 29 de novembro de 1891, seu nome estava incluído na Junta Governativa que o sucedeu, juntamente com o cel. Roberto Ferreira e Lamenha Lins.

Destacou-se também em outras atividades. Implantou a agência local do Banco União e Indústria de São Paulo, e como gozasse de prestígio e crédito, encarregou-se de empréstimos para o Estado do Paraná, que, ao tempo, era dos mais pobres. Também se encarregou durante o governo Santos Andrade, de pesquisar documentos na Europa para a questão de limites com Santa Catarina. Conseguiu-os e os entregou ao Conselheiro Barradas, primeiro advogado dos interesses do Paraná no célebre litígio.

Várias vezes provedor de Santa Casa de Misericórdia de Curitiba e primeiro presidente da Junta Comercial do Paraná, que foi fundador. Tudo nele era coração, entusiasmo e valentia. Todos os nobres ideais encontravam eco no seu generoso peito. Assim, a abolição dos escravos e o ideal republicano. Assim, as construções de beneficência pública, como o Asilo N.Sra. da Luz e outros de utilidade geral.

Quando se aproximou a revolução de 1893/94, encontrava-se fora do Estado, em sua cidade natal, para onde fora a negócios, de forma que não se engolfou em ódios mesquinhos e perseguições políticas de aldeia. Não tomou parte na emulação de ódios profundos que separavam as famílias curitibanas, embora fosse homem de partido e nas suas convicções se mantivesse.

Se tivesse seguido constantemente o empirismo de seu começo de vida, certamente teria terminado rico e influente pelo dinheiro armazenado. Sonhador, patriota, ativo, iniciou grandes empreendimentos, tendo podido concluir muito pouco por falta de conhecimentos técnicos próprios e de ambiente, ainda que suas iniciativas houvessem sido todas de grande valor e sobrado mérito.

Tentou estabelecer em Curitiba uma indústria de vidros, depois lançou as bases para um fabrica de chapéus, mas ambas essas iniciativas falharam, mais por falta de técnica do que de capital. Foi idealizador também de uma fábrica de fósforos, a primeira construída no Brasil, mas esta iniciativa deixou-o em mãos de ambiciosos de menos escrúpulos, que ficaram senhores de todas as vantagens do negócio.

Em 1907, a situação que parecia abusiva, da chamada “Oligarquia dos Serafins”, determinou um movimento contrário ao vice-presidente Otoni Maciel e no Congresso Estadual a oposição chegou a formar-se com a bancada governista para declarar o impedimento de João Cândido Ferreira, médico ilustre e homem de muito nome e merecido prestígio, que houvera sido eleito presidente do Estado.

Joaquim Monteiro foi adverti-lo lealmente, dizendo-lhe que, se não tomasse providências, em pouco tempo o movimento político conseqüente ao de opinião, seria impossível de frear-se. Não lhe deu credito João Cândido, embalado como estava na confiança ao seu partido e no prestígio de que dispunha. As forças coligadas, desde que o movimento tivera início de um projeto de impugnação constitucional de Caio Machado, avolumaram-se. Alencar Guimarães consentiu em dirigir esse movimento e, em pouco tempo, efetivamente João Cândido estava sem maioria no Congresso e foi obrigado a renunciar ao ver que o próprio senador Xavier da Silva o abandonara.

Esse movimento político inaugurou a aliança entre republicanos e federalistas, até então inimigos ferrenhos.

Joaquim Monteiro era homem vivo, ágil, alegre, alourado e de olhos azuis. Na maturidade ficou completamente calvo. Nada o intimidava, conforme o demonstrou por ocasião da revolta dos sargentos em 1908; mas possuía um coração magnânimo e extrema bondade.

Faleceu em casa de seu dedicado genro, Artur Martins Franco. Entre os minutos anteriores ou posteriores à meia noite de 6 para 7 de dezembro de 1917, em Curitiba. Deixou enorme descendência. No Paraná, pelos lados Franco e Carneiro; e fora do Estado pelos que lhe deram continuidade ao nome, notadamente no Rio de Janeiro.

Biografia: História biográfica da república no Paraná, de David Carneiro e Túlio Vargas, 1994.
Ilustração: Theodoro de Bona e Dulce Ozinski.


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